quinta-feira, 17 de novembro de 2011

ASSASSINO DE DOROTHY STANG É ENTREVISTADO PELA A REVISTA ÉPOCA

Rayfran das Neves
Aos desavisados, o goiano Rayfran das Neves, de 35 anos, parece um cara como qualquer outro. De camiseta vermelha, bermuda xadrez e chinelo, ele chega à casa do seu advogado em Belém acompanhado da namorada, uma morena de aparelho nos dentes, sorriso largo e decote avantajado. O casal se despede para a entrevista começar. Faz sentido que a moça não esteja presente, já que o assunto a ser tratado não é dos mais agradáveis. Neves falou à ÉPOCA sobre a manhã de 12 de fevereiro de 2005, quando, com seis tiros à queima roupa, ele silenciou a missionária americana Dorothy Stang na pequena Anapu.

Assassino confesso de Dorothy, Neves cumpre sua pena de 27 anos no regime semiaberto em Belém. Tem uma rotina quase normal. Trabalha no almoxarifado de um órgão do governo, pega ônibus, anda sozinho pelas ruas. Volta à prisão apenas para dormir e passar os finais de semana. Durante a entrevista de uma hora e meia, ele sorriu todos as vezes que mencionou o nome de Dorothy. E se mostrou desconfortável ao contar os detalhes do crime. Tão logo a conversa acabou, Neves pegou o celular e ligou para a companheira: “você não confia em mim? Sou um homem sincero. Se estou dizendo que te amo, é porque te amo”.

ÉPOCA – Você conhecia a irmã Dorothy?
Rayfran das Neves – Conhecer bem não. Eu tinha visto a irmã duas vezes. Em uma reunião e de vista. Não cheguei a falar com ela.

ÉPOCA – Vocês não tiveram uma briga um dia antes do assassinato?
Neves –Um dia antes, a gente estava limpando a área para construir uma casa. O Tato [Amair Feijoli da Cunha, condenado como intermediário do crime], eu e o Clodoaldo [apontado como co-autor]. A gente estava trabalhando e ela chegou com o pessoal dela. Disse: “é aí que você vai fazer sua casa?”. O Tato respondeu: “sim, vou construir uma casa para morar com a minha família.” Ela respondeu: “então faça bem feito porque essa casa vai servir pro meu pessoal”. Aí começou a discussão. Quando deu umas quatro da tarde, a gente pegou a caminhonete para ir a Anapu. Mas a caminhonete atolou. Estava chovendo muito. O Tato ouviu a Dorothy dizer: “eles são só em cinco pessoas. Nós somos em mais de 150. No final de semana, vamos tirar esse povo daí de dentro de um jeito ou de outro”. Você sabe que ela fornece arma e manda matar. O que vai passar pela mente do ser humano? Que a gente vai morrer. Qual era o plano deles? Quando fosse de manhã, eles iam botar fogo no carro para matar eu e o Tato.

ÉPOCA – Eles estavam armados?
Neves – O segurança da Dorothy, um tal de Geraldo, estava. Eles costumavam andar armados. Com 12, pistola, 38, espingarda, 20. Ela em si não andava, mas fornecia armas para eles.

ÉPOCA – Onde ela conseguia as armas?
Neves – Isso eu não sei. Mas no meu julgamento isso foi comprovado. Ela foi desmascarada. Já tinha sido presa por porte ilegal de arma. Por mandar matar o gerente de uma fazenda, a mulher do gerente, a filha do dono. Ela mandou matar, sabe? Mas por ser uma freira americana, a embaixada ligou dizendo que eles tinham meia hora para soltar. Ela deixou um bilhete para os sem-terra dizendo que a Polícia Federal estava atrás dela. Isso foi tudo colocado no Tribunal do Júri para mais de 500 pessoas. Ela se escondia atrás da palavra de Deus. Com a Bíblia na mão, passava por uma senhora de 73 anos que aparentemente não fazia mal a ninguém. Ela em si não fazia, mas tinha poder e mandava fazer.

ÉPOCA – Por que vocês brigavam?
Neves – Ela queria toda a área do Bida [Vitalmiro Bastos de Moura, acusado de ser um dos mandantes do crime] e do Tato. É uma terra muito rica em minério, ouro, madeira. E o pessoal dela vive de tirar a madeira e vender a propriedade. Aí invade outras áreas. Não são só sem-terra. Alguns têm carro bom, supermercado, casa na cidade. Eles tinham apoio de algumas pessoas por trás. E a irmã Dorothy era uma delas.

ÉPOCA – Qual era o interesse dela?
Neves – Ela disse que ia tirar toda a madeira, beneficiar e exportar para os Estados Unidos. Ela chegou a falar isso aí. Para mim e para o Clodoaldo.

ÉPOCA – O que aconteceu exatamente no dia do crime?
Neves - De manhã, eu saí do barraco para ir até onde estava o carro. Ela estava no meio do caminho, dormindo em outro barraco, e veio na minha direção. A gente se encontrou perto de uma curva. Naquela hora, ela estava sozinha. Depois chegou o Cícero, um sem-terra que até já morreu. A gente estava conversando, meio discutindo. Eu disse que estava fazendo meu trabalho. Que eu ganhava para plantar aquele capim. Ela disse que não tinha nada contra o Clodoaldo. Mas que eu estava ali para morrer no lugar dos fazendeiros. Ela disse que resolveria esta situação da terra em Brasília. Quando ela foi sair, eu a chamei. Ela virou de volta e eu disse: “se você não resolveu até agora esta situação, não vai resolver nunca mais”. Aí eu puxei o revólver, ela puxou a Bíblia e colocou na frente para se defender. Quando eu dei o primeiro tiro, ela caiu de lado. Dei um tiro na nuca quando ela já estava no chão. Talvez, se eu não tivesse dado o tiro na nuca, ela ainda estaria viva.

ÉPOCA – E o que o Clodoaldo fez?
Neves – Ele nem sabia que eu estava armado. Eu não costumava andar com arma. Neste dia, eu peguei porque o Tato saiu para trabalhar e não guardou. Não dava para deixar uma arma lá em cima.


ÉPOCA – De onde veio a arma?
Neves – Eu comprei em Altamira de um amigo meu. Num mercado. Paguei R$ 450. Comprei, deixei em Altamira e fui trabalhar. Aí pedi para buscarem. Como todo mundo em Anapu andava armado, resolvi ter a minha comigo também.

ÉPOCA – Você acha que a irmã Dorothy era perigosa?
Neves – Eu acredito que sim. Até pelo passado dela. Não era muito favorável. Até onde eu sabia, ela era um pouco perigosa.

ÉPOCA – O que você fez em seguida?
Neves – Logo que aconteceu, minha reação foi fugir. Eu só corri, corri, corri na mata. Se eu ficasse ali, iria morrer. Depois de 10 dias no mato, eu parei para refletir. Na hora passa um branco na mente da pessoa. Só depois que você para consegue entender o que aconteceu.

ÉPOCA – Você olhou para trás?
Neves – Não. Mas eu sabia que ela estava morta. Eu atirei nela, né? O último tiro, o da nuca, tinha certeza que mataria.

ÉPOCA – De lá você foi para onde?
Neves – Para a fazenda do Bida. A gente chegou umas três da tarde. O Bida já estava lá. Às quatro horas da manhã, a gente saiu a pé. Andamos mais de 100 quilômetros na Transamazônica, sempre à noite. Fiquei 10 dias foragido. Quando a gente escutava carro ou moto, se escondia na mata. A gente via a Polícia Federal passando na estrada a 50 metros de nós. Eles passavam a cada 10 minutos. Eu fiquei a maior parte do tempo no curral de uma fazenda. Dormia dentro da balança de pesar gado. Passei todos esses dias comendo manga. Tinha um riacho ali perto. A gente tomava água e banho. Eu tinha R$ 50 no bolso. Dia depois comprei bolacha e umas coisas para comer. Aí resolvi me entregar.

ÉPOCA – Você ganhou dinheiro para matar a irmã Dorothy?
Neves – Não teve esta história. Não ganhei nada.

ÉPOCA – Você disse no seu depoimento que havia ganhado. E depois mudou a versão várias vezes. Por quê?
Neves – Estratégia dos advogados. Pelo menos eu acho.

ÉPOCA – E para mim? Você está falando a verdade?
Neves – Eu estou falando o que aconteceu, entendeu?

ÉPOCA – Quando você percebeu o que tinha feito?
Neves – Quando eu percebi que estava sendo caçado. Estava cercado e não me restava mais nada além de me entregar. Pensei: “agora preciso pagar pelo que eu fiz”.

ÉPOCA – Você teve medo?
Neves – Tinha medo de acontecer algo que envolvesse minha mãe, irmãos, filhos. De acontecer algo comigo, morrer, sei lá… E eu não falar mais com eles.

ÉPOCA – E como foi quando você se entregou?
Neves – Eu fui para a beira da Transamazônica. O carro da PF veio. Eles pararam e perguntaram: “como é teu nome?”. Eu respondi. Eles de novo: “você tem tatuagem?”. Aí eu mostrei minha tatuagem [um tribal de escorpião] e eles me prenderam. Eles não me deram porrada em momento algum.

ÉPOCA – A irmã Dorothy acabou virando uma mártir da floresta. O que você acha disso?

Neves – Ela virou a santa da Transamazônica, né? Para os sem-terra, ela foi e sempre vai ser. Mas para quem realmente a conhecia, sabe que é mentira. Aqui em Belém as pessoas não a conheciam. Elas conhecem o que a mídia coloca: uma mulher batalhadora, que defende a natureza e os pobres. Mas quem procurar saber quem ela é de verdade, terá uma decepção.

ÉPOCA – Você acha que ela era gananciosa?
Neves – Ela eu não sei. Mas como ela tinha outros países que apoiavam o trabalho dela, essas ONGs aí, poderia mesmo acontecer tudo isso. Diz que tinha cinco países que apoiavam esse trabalho dela. Foi o que eu ouvi falar.

ÉPOCA – Se ela não fosse americana, você teria agido diferente?
Neves – Eu não sei. Talvez na hora da raiva fosse a mesma coisa.

ÉPOCA – Você imaginava que teria essa repercussão toda?
Neves – Não. E se eu soubesse que ia dar nisso, não teria feito.

ÉPOCA – Como está sua vida hoje?
Neves – Não está boa. Eu estou longe da minha família, que mora em Altamira. Tenho saudade dos meus filhos, da minha mãe. Nada justifica você tirar uma vida. Eu me arrependi muito. Se tivesse como voltar atrás, não teria feito. Já sofri muito. Essa vida de cadeia não é para mim. Você perde as pessoas de que mais gosta.

ÉPOCA – O que você espera do futuro?
Neves – Sempre digo que o futuro a Deus pertence. Meu foco é trabalhar para não depender mais dos outros.

ÉPOCA – Você acha que Deus te perdoou?
Neves – Eu não sigo nenhuma religião, mas acredito em Deus. Leio muito livro de espiritismo. Sempre estou lendo. Acho que a igreja não salva ninguém. Deus é um só. Acreditar nele é suficiente. Faço minhas orações todos os dias. Peço perdão todo dia. E tenho certeza de que ele me perdoou. Peço também que ele não me deixe cometer mais nenhum erro. Porque o preço é muito alto. A mídia me colocou como um pistoleiro, um mostro. Mas eu não vejo assim. Foi apenas um desvio de conduta. As pessoas que me conhecem sabem que eu não sou assim. O Rayfran não tem maldade.

ÉPOCA – E quem é o Rayfran para você?
Neves – O Rayfran hoje é uma pessoa alegre. Sem raiva de ninguém. Sem maldade com ninguém. Que conversa com todo mundo. Às vezes, as pessoas falam comigo e eu levo tudo na graça. Eu estou sorrindo não é por deboche do que aconteceu. É meu jeito mesmo. Nunca estou estressado, com a cara feia ou emburrada.

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